Falar de filosofia no contexto de uma empresa de tecnologia pode soar deslocado. Tem gente que vai achar pouco prático, pouco efetivo, distante do que a gente lida no dia a dia entregando arquitetura, código e estratégia para clientes. Eu penso diferente, e queria usar este espaço para explicar por quê.
Filosofia, para mim, é uma ferramenta de trabalho. Tão concreta quanto um diagrama C4 ou uma fitness function. Ela me ajuda a refletir sobre nossa realidade, sobre o papel de cada um dentro dos grupos que integramos e sobre nossa relação com nós mesmos. É um instrumento poderoso para melhorar a qualidade do raciocínio, entender como as ideias se relacionam, abrir espaço para perspectivas novas e ajudar um grupo a ser mais plural.
Na Elegant Garden, duas filosofias em particular nos guiam: Ubuntu, que olha para como funcionamos enquanto grupo, e Shokunin, que olha para a relação do indivíduo com seu ofício. Elas não são pôster na parede. São critério de decisão.
Ubuntu: eu sou porque nós somos
Ubuntu é uma filosofia de origem africana, e no fim das contas ela é tão simples quanto dizer: eu sou porque você é, ou eu sou porque nós somos. A existência do indivíduo só faz sentido quando está aplicada e conectada a um grupo, uma comunidade, uma equipe, uma sociedade. Ninguém existe sozinho. Ninguém é uma ilha.
O que Ubuntu tenta mostrar é que o indivíduo é importante, mas o grupo é sempre mais importante que o indivíduo. E essa relação precisa estar em perspectiva no momento da tomada de decisão. Em alguns momentos, o que não é o melhor para uma pessoa individualmente é o melhor para o grupo, e é importante que essa pessoa tenha consciência disso e saiba ceder, para que o grupo ganhe.
Não é um chamado ao auto-sacrifício. É uma forma de existir profissionalmente que entende que sua contribuição só faz sentido em relação aos outros. Os pilares dela são respeito e solidariedade.
Não é por acaso, aliás, que um dos sistemas operacionais mais conhecidos do mundo carrega esse nome. A filosofia open source reflete bastante esse espírito: contribuições são mais poderosas quando feitas em comunidade. O grupo é sempre mais importante que o indivíduo.
Na prática, Ubuntu se manifesta na Elegant Garden em coisas como:
- Decisões construídas por consenso: com espaço genuíno para que cada pessoa traga sua perspectiva, mesmo quando essa perspectiva não vai ser a acatada no final. O exercício de escutar pontos de vista diferentes já muda a qualidade da decisão.
- Respeito pela individualidade dentro do coletivo: particularidades, opiniões, religiosidades, jeitos diferentes de pensar. Um ambiente seguro o suficiente para que essas diferenças apareçam.
- Cortesia, generosidade e confiança: como pré-requisitos, não como bônus.
- Desprendimento: entender que muitas vezes a melhor decisão para o grupo não é a melhor decisão para você naquele instante específico, e tudo bem.
Um detalhe importante: Ubuntu não está dizendo para você não se preocupar com sua individualidade ou seu desenvolvimento. Está dizendo que dá para fazer isso e também observar o bem da comunidade. Existe uma forma de se desenvolver que tem espaço para você crescer enquanto ajuda o grupo a crescer junto. É essa forma que a gente procura.
Também tem um alerta embutido aqui, que eu acho importante deixar explícito: consenso não pode virar acomodação. O grupo precisa continuar se provocando, indo além do senso comum. Concordância confortável demais geralmente é sinal de que alguém parou de pensar.
Shokunin: a busca pela perfeição como direção
Se Ubuntu é a filosofia para o grupo, Shokunin é a filosofia para o indivíduo.
Shokunin é uma palavra japonesa que, na tradução literal, significa algo como artesão, uma pessoa que faz trabalhos manuais. Mas o significado é bem mais profundo. Para os japoneses, Shokunin engloba não só as habilidades técnicas, mas uma atitude, uma consciência social por trás do trabalho. O significado que aquele ofício, feito por aquela pessoa, tem para os benefícios que ele traz para a comunidade.
O trabalho individual deveria conter uma busca pela perfeição. Uma busca que, como qualquer utopia, não é para ser de fato alcançada, ela serve para incentivar o caminhar. É uma direção para onde nos orientar. A ideia é simples: buscar melhorar meu trabalho me desenvolve como profissional e como pessoa, e esse desenvolvimento, no final, se reflete num benefício maior para quem usufrui daquilo que eu faço.
Shokunin tem cinco aspectos, e eles formam algo bem próximo de um manual de conduta para quem leva o ofício a sério.
Dedicação. Perseverança e compromisso. Mesmo quem tem um dom natural precisa investir energia, ter disciplina, se dedicar para desenvolver esse dom. É uma forma de respeitar o dom que você tem, explorá-lo ao máximo. E como o benefício do seu trabalho acaba sendo um benefício para a comunidade, a dedicação deixa de ser só sobre você.
Evolução. Sempre existe espaço para melhorar. Algum atrito, alguma dificuldade, alguma característica do trabalho que pode ser aperfeiçoada, em produtividade, em prazer para quem executa, em eficiência, em eficácia. E aqui tem um ponto crítico: no momento em que você acredita que chegou no auge da sua contribuição, automaticamente começa a entrar em declínio. Não evoluir, na velocidade do mundo de hoje, já é andar para trás. Não é uma corrida, não é uma comparação constante com os outros, é, dentro da sua atividade, continuar achando formas de avançar.
Organização. O ambiente onde você trabalha, os métodos, as ferramentas. Capricho e esmero na execução. É muito difícil que criatividade flua ou que evolução aconteça num ambiente desorganizado. Organização é uma manifestação de cuidado com o próprio trabalho.
Obstinação. Um pouco de teimosia. Um pouco de audácia. Acreditar que é possível fazer diferente, e essa crença precede a manifestação. Em inovação, primeiro você precisa acreditar que é possível, depois você realiza. Dar espaço à intuição, buscar originalidade, ir além do senso comum. É aqui, aliás, que Shokunin conversa diretamente com Ubuntu: o consenso do grupo é importante, mas não pode virar acomodação. A obstinação individual é o que mantém o grupo vivo.
Paixão. Gostar do que faz, demonstrar entusiasmo. Paixão é contagiante, as pessoas ao redor percebem. E quando você sente o significado do que está fazendo, o trabalho fica mais leve, mais natural, muitas vezes vira diversão. Sem emoção, sem energia, não tem espaço para criação nem para inovação.
Por que isso importa para quem está pensando em se juntar à Elegant Garden
Eu poderia ter escrito sobre stack, sobre os tipos de problema que resolvemos, sobre os clientes que atendemos. Tudo isso importa e está em outros lugares. Mas se você está considerando entrar na Elegant Garden, a pergunta mais importante não é no que vou trabalhar, e sim como vamos trabalhar juntos.
Ubuntu e Shokunin respondem essa pergunta com mais honestidade do que qualquer descrição de cargo.
Estamos construindo a Elegant Garden pessoa por pessoa. Não é figura de linguagem. Cada nova pessoa que entra muda o que somos — o que torna a decisão de quem entra uma das mais importantes que tomamos. Procuramos gente que:
- Trate o próprio ofício com a seriedade que Shokunin sugere, alguém que se importa com a qualidade do que entrega não porque o cliente vai perceber, mas porque é assim que se trabalha.
- Esteja disposta a ceder, escutar e construir junto no espírito Ubuntu, não como performance de humildade, mas como entendimento prático de que ninguém entrega bom trabalho sozinho.
- Tenha obstinação para discordar quando precisa discordar, e generosidade para construir junto quando o grupo tomar outra direção.
- Entenda que dedicação, evolução, organização, obstinação e paixão não são qualidades de um profissional excepcional, são o piso, o estado normal de quem leva o ofício a sério.
Não estamos atrás de pessoas perfeitas. Estamos atrás de pessoas orientadas pela direção certa. A perfeição é utopia, e está tudo bem que seja, ela só precisa servir para a gente continuar caminhando.
Se isso fez sentido para você
Se você leu até aqui e gostou do que leu, se a ideia de tratar o ofício com seriedade enquanto constrói algo em comunidade soa como o tipo de ambiente em que você quer trabalhar, eu adoraria continuar essa conversa.
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Me mande uma mensagem diretamente. Não precisa ser pedido de vaga, não precisa ser pitch. Se os princípios deste texto fazem sentido para você e você quer trocar uma ideia sobre arquitetura, sobre carreira, sobre como construir times que pensam assim, minha caixa de entrada no LinkedIn está aberta. Conversa boa abre porta para coisas que processo seletivo nenhum abre.
A Elegant Garden está sendo construída pessoa por pessoa. Talvez a próxima seja você.